sexta-feira, 25 de junho de 2010

São João da minha infância


Meio nostálgica rumo em direção ao São João da minha infância. Bastava junho chegar que os preparativos começavam. O rádio de pilha espalhava a voz de Gonzagão pelos quatro cantos da casa. Às vezes, o segundo irmão pegava a sanfona, e ajudava a esquentar o clima festivo, na fazenda contornada pelo Rio Pardo.

Bem antes da adolescência, aos 8 anos, a música junina me convidava a dançar, mesmo no chão sem revestimento, e levantar a poeira. Quando não tinha um parceiro ou parceira (pai, irmão, irmã...), era só pegar uma vassoura de palha e fingir que estava acompanhada: haja arrasta-pé, xote, baião...

Melhor ainda era o 23 do mês, véspera do Dia de São João. Mal o sol se despedia, tinha início a farra. Na nossa casa, ou nas redondezas, ninguém da família ficava sem participar dos festejos. Às vezes era preciso atravessar de canoa o largo rio em busca do forró mais animado.

Licor ou quentão nem pensar para a garotada. Bom mesmo eram os fartos petiscos. Bolos de variados tipos, biscoitos caseiros salgados e doces, pamonha e canjica de milho verde, pernil e franco assados no forno a lenha, laranja... De madrugada a grande sensação era lançar a batata doce na fogueira. Aos poucos a cor da casca mudava, tornando mais escura, sinal de que a raiz estava quase pronta para ser saboreada.

A noite ia embora, o Sol raiava, mas a oito baixos cotinuava atraindo gente para embalar o corpo no salão (ou salinha ou cozinha ou quintal). No São João a vida pulsava no ritmo da sanfona envolvendo, no mesmo clima, crianças, jovens, adultos, pais, filhos, avós, netos. (Foto: Flickr)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Vagalumes


 
Brilho dos faróis
corta a noite
de chuva mansa.
Estrelas cedem
lugar aos vagalumes
que riscam 
o asfalto molhado.
Dançam na avenida
natureza enigmática
e cérebros pragmáticos.
Seguem para onde não sei.
Gotas d'água ainda
lavam a pista.
Contemplo o infinito
e revejo sonhos.

Foto: Flickr


terça-feira, 18 de maio de 2010

Máscara



 Revolvo cacos na
reconstrução da imagem
que a vida incorpora 
dos velhos e novos tempos.
Sensações, às vezes boas,
e outras nem tanto, 
desenham silhuetas
belas, outras disformes.
Expressam a natureza
visível, a face, a máscara.
Só não revelam o retrato 
interior (este real)
moldado pelas vivências,
convivências, conveniências.
Ontem, hoje, sempre.

Foto: Flickr







sexta-feira, 7 de maio de 2010

Zelo de mãe

 

 Zelo de mãe,
cuidar de mim que sou mãe.
Zelo de mãe,
cuidar do filho que gerei.
Zelo de mãe,
cuidar do outro que não tem mãe.
Zelo de mãe,
cuidar da mãe que não tem filho.
Zelo de mãe,
ser mãe de você que é mãe.
Zelo de mãe,
ser mãe de mim que não sou mãe.

Publicado no ano de 2002, em
Sintonia - Caderno de Poesias e Crônicas,
de minha autoria.

Foto: Flickr